As veias da perna têm a tarefa de levar o sangue de volta ao coração contra a gravidade, do pé até o abdome, e fazem isso com dois recursos: válvulas que só abrem para cima e a musculatura da panturrilha, que funciona como bomba a cada passo. Quando esse sistema trabalha bem, você não sente nada.

Entender essa mecânica é o que faz o resto fazer sentido: por que varizes aparecem, por que a meia de compressão ajuda, por que caminhar é recomendado e por que trombose venosa profunda é um problema de outra ordem. Nada aqui substitui a avaliação presencial com médico, que é o que define diagnóstico e conduta.

Como são divididas as veias da perna

A circulação venosa da perna tem três componentes. O sistema superficial fica logo abaixo da pele, dentro da camada de gordura, e você pode enxergar parte dele no dorso do pé. Ele drena a pele e o subcutâneo e responde por uma parcela pequena do sangue que sobe.

O sistema profundo corre entre os músculos, acompanhando as artérias, protegido pela fáscia. É por ele que passa a maior parte do sangue de retorno, e é nele que a bomba da panturrilha atua com mais força.

As veias perfurantes são as ligações entre os dois, atravessando a fáscia. Elas também têm válvulas, e o sentido normal do fluxo nelas é do superficial para o profundo. Quando uma perfurante perde a competência da válvula, o sangue do sistema profundo, que está sob pressão alta durante a contração muscular, passa a empurrar na direção errada e sobrecarrega a rede superficial.

Característica Sistema superficial Sistema profundo
Localização Entre a pele e a fáscia muscular Entre os músculos, junto às artérias
Parcela do retorno venoso Pequena A maior parte
Principais veias Safena magna e safena parva, com suas colaterais Femoral, poplítea, tibiais e fibulares
Visível na pele Pode ser, sobretudo em pessoas magras Não
O que acontece quando falha Varizes, vasinhos, peso e inchaço no fim do dia Quadros mais graves, com risco de trombose e de síndrome pós-trombótica
Pode ser retirada ou fechada em tratamento Sim, quando doente, porque o profundo assume a drenagem Não; é a via principal e precisa ser preservada

Safena magna e safena parva

As duas safenas são as veias superficiais mais importantes. A safena magna é a mais longa do corpo: começa na face interna do tornozelo, sobe pela parte interna da perna e da coxa e desemboca na veia femoral, na região da virilha. A safena parva começa na face externa do tornozelo, sobe pela parte de trás da panturrilha e desemboca na veia poplítea, atrás do joelho.

Elas aparecem com frequência nas conversas sobre varizes por dois motivos. Primeiro, porque é comum que o refluxo comece justamente nas válvulas da junção dessas veias com o sistema profundo, e daí se propague para baixo, dilatando colaterais que ficam visíveis na pele. Segundo, porque são as veias que a termoablação e a cirurgia tratam quando há refluxo documentado, uma vez que o sistema profundo assume o retorno.

Válvulas e bomba muscular: como o sangue sobe

As veias têm, ao longo do trajeto, pequenas abas que se encostam quando o sangue tenta descer: as válvulas. Elas dividem a coluna de sangue em segmentos, para que o peso não se concentre todo no tornozelo.

O que empurra o sangue para cima não é o coração, e sim a musculatura. A cada contração da panturrilha, as veias profundas que passam entre os músculos são comprimidas e o sangue é lançado para cima; na hora do relaxamento, as válvulas abaixo impedem que ele volte, e o segmento se enche novamente pelo sangue que vem do pé. É por isso que a panturrilha é chamada de segundo coração, e por isso que ficar muito tempo imóvel em pé ou sentado aumenta a pressão nas pernas.

Somam-se a compressão da sola do pé a cada passo, a pressão negativa do tórax na respiração e o tônus da parede das veias. É um sistema redundante, o que explica por que uma veia superficial doente pode ser fechada sem prejuízo para a perna.

Quando a válvula falha: do incômodo estético à doença venosa crônica

Se uma válvula deixa de fechar, o sangue reflui no sentido oposto e a coluna volta a pesar sobre os segmentos de baixo. A pressão dentro da veia aumenta, a parede se dilata, e as válvulas vizinhas, que passam a trabalhar em um tubo mais largo, também perdem a capacidade de encostar. É um processo que se alimenta, chamado de hipertensão venosa.

No início, isso pode se manifestar apenas como vasinhos ou pequenas veias azuladas, sem sintoma. É a faixa em que muita gente procura ajuda pela aparência. Com o tempo, o excesso de pressão começa a extravasar líquido e componentes do sangue para o tecido, e surgem peso nas pernas, dor que piora ao fim do dia e melhora com a perna elevada, inchaço no tornozelo, cãibras noturnas, coceira e sensação de queimação.

Nos estágios mais avançados, a pele responde ao depósito crônico de pigmento e à inflamação: escurecimento na região do tornozelo, endurecimento do subcutâneo, eczema e, por fim, úlcera venosa, uma ferida de difícil cicatrização. Isso é doença venosa crônica, não questão estética, e o quadro completo está em causas, estágios e diagnóstico das varizes na perna e em sinais de alerta na perna com varizes.

O exame que separa um cenário do outro é o ultrassom Doppler venoso, que mostra se existe refluxo, em quais veias e em que extensão. Duas pernas visualmente parecidas podem ter mapas venosos bem diferentes, e é esse mapa que orienta a conduta, como descrito no panorama de opções de tratamento de varizes.

Trombose venosa profunda: outro problema, mais grave

Varizes são um problema de válvula e de pressão no sistema superficial. A trombose venosa profunda é um coágulo que se forma dentro de uma veia do sistema profundo, obstruindo a via principal de retorno. São mecanismos diferentes, e um não é a evolução natural do outro.

A gravidade vem de duas situações. Uma parte do coágulo pode se desprender e chegar ao pulmão, quadro conhecido como embolia pulmonar. E, mesmo quando isso não acontece, a veia profunda pode ficar com válvulas danificadas depois da trombose, levando à síndrome pós-trombótica, com inchaço persistente e risco maior de úlcera.

Alguns sinais pedem avaliação imediata, sem esperar consulta agendada: dor e inchaço que surgem em uma perna só, com aumento de volume da panturrilha; dor que piora ao caminhar ou ao apertar; vermelhidão com calor e endurecimento; perna tensa e brilhante. E, de forma urgente, falta de ar súbita, dor no peito, tosse com sangue ou desmaio. Imobilidade prolongada, cirurgia recente, gestação e puerpério, câncer, alguns hormônios e histórico de trombose aumentam o risco.

Na dúvida sobre quem procurar, o que faz um cirurgião vascular e o que faz um angiologista explicam a atuação de cada um.

Pontos-chave

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Perguntas frequentes

Dá para viver bem sem a safena?

Sim, quando ela está doente e o sistema profundo está competente, situação avaliada no ultrassom Doppler. A safena superficial responde por uma parcela pequena do retorno, e o sangue é redirecionado para as veias profundas. Por isso a retirada ou o fechamento dessa veia é uma conduta possível em casos indicados.

Por que as veias da perna aparecem mais em algumas pessoas?

Pele fina, pouca gordura subcutânea e massa muscular evidente deixam veias normais mais visíveis sem que exista doença. Já veias tortuosas, salientes e que aumentam com o tempo têm outro significado, e a diferença é feita no exame físico e no Doppler.

Ficar muito tempo em pé ou sentado causa varizes?

Essas posições mantêm a bomba da panturrilha parada e a pressão venosa alta por mais tempo, o que tende a agravar sintomas e contribuir para a progressão em quem já tem predisposição. A causa de base envolve principalmente fatores genéticos, hormonais e história de gestações.

Caminhar faz bem para as veias da perna?

Em geral sim, porque cada passo aciona a bomba muscular e reduz a pressão dentro das veias. Para quem já tem doença venosa, a caminhada costuma ser recomendada junto com compressão e elevação das pernas, respeitando a orientação individual recebida na consulta.

Varizes podem virar trombose?

Varizes podem desenvolver tromboflebite superficial, com cordão endurecido, dor e vermelhidão no trajeto da veia, e em algumas situações esse processo se estende ao sistema profundo. Não é a regra, mas é um dos motivos pelos quais dor localizada com endurecimento merece avaliação em vez de observação prolongada.

Avaliação com Dra. Thacira Dantas (CRM 6480), medicina vascular, para examinar suas pernas, mapear o fluxo venoso e esclarecer o que cada achado significa no seu caso.

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